sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Espaço e sociedade: um intercâmbio consumista e delineado

O texto abaixo eu escrevi há um tempo, mas tem a ver com os assuntos que são discorridos neste blog, especialmente sobre o estilo de vida "moderno". Ele engloba várias questões, inclusive uma que está chegando na globo (com letra minúscula, sim) em sua décima-não-sei-qual temporada. 


Nada é orgânico, é tudo programado. E eu achando que tinha me libertado...

Sociedade de controle. Ditadura da beleza. Geração de botões. Se essas denominações representam muito bem nossa sociedade atualmente, já é possível notar que a idéia de liberdade e democracia plenas não é verdadeira e não condiz com a realidade propriamente dita, apesar de assistirmos, a cada dia, à mais nova ilusão criada pela mídia e pelo mercado de consumo.

Não há dúvidas de que somos socializados pela imagem; esta é, incontestavelmente, a afirmação do discurso predominante na sociedade, aquele que nos diz o que fazer, como agir, o que ter e o que ser, como condições necessárias para garantirmos nossa felicidade. Portanto, a concepção de que nossa subjetividade é capturada não só é válida, como se faz presente em diversos aspectos da vida.
Somos escravizados pelos padrões de beleza que nos são impostos. São tantas as propagandas afirmando que o mundo cai aos pés das mulheres consideradas lindas que o mercado só tem a ganhar ao difundir esses ideais, pois a lógica do consumo só consegue sobreviver enquanto houver pessoas insatisfeitas e dispostas a pagar – muitas vezes – o preço mais caro para tentar atingir determinado padrão.
Tudo se trata de uma questão óbvia, que é o culto à beleza efêmera (uma vez que não se tem valores sólidos) e sua ligação com o tempo irrefletido.
Mas esta relação entre consumo e mídia não termina aí. Ela perpassa por todos os produtos que temos à disposição. Não há o que esconder: o propósito, a finalidade do mercado é o apego ao lucro sem critérios específicos. O cerne da questão está no fetiche da mercadoria; consumir torna-se algo extremamente prazeroso (e perigoso) que a graça está justamente na satisfação do desejo de comprar, independentemente do que foi consumido ter ou não alguma utilidade.
A publicidade tornou-se uma arma potente. A mídia, em geral, é capaz de nos apresentar algo de que não precisamos, inserindo nesses produtos tudo o que nos falta, todas as qualidades que completam necessidades subjetivas formadoras da personalidade e na vida cotidiana, como poder, coragem, ousadia, charme, capacidade de decisão, sensualidade... Enfim, valores e atributos apropriados para nos tornarem indivíduos com sucesso na vida profissional, afetiva e assim por diante.
Se por um lado o mercado não descansa, do outro se tem o investimento maciço em venda de ilusões. Outra estratégia é a superexposição do privado; somos vigiados constantemente. Esta vigilância se faz presente para nos lembrar, a todo o momento, de que alguém está de olho em nossas ações, o que fazemos ou deixamos de fazer é socializado com todos.
É por isso que a privacidade virou um espetáculo. O sentido dessa exposição deveria trazer algo lucrativo para alguém. Dito e feito. Não bastassem as câmeras nos elevadores, condomínios, lojas, ruas (primeiro com a justificativa de segurança, como se o espaço privado que se tornou público fosse mera conseqüência), os realities shows vieram a todo vapor, com a proposta de sucesso garantido àqueles que estivessem dispostos a compartilhar os momentos mais íntimos de seu cotidiano. 
Isso é de uma seriedade sem tamanho. Mais uma vez a subjetividade foi apreendida. Uma vez que se está conectado por câmeras, o indivíduo muda. A vida é outra, não há espontaneidade, pois todos os gestos passam a ser calculados e a pessoa se torna um pacote aberto por outras.
Há ainda uma última observação no que concerne ao domínio de espaços, que são os limites do espaço real e virtual. O mundo virtual toma conta do espaço real e é como tal: tem todo tipo de gente. Gente revoltada e sossegada, gente interesseira e interessante, felizes e insatisfeitos, inteligentes e ignorantes, sãos e insanos, pesquisadores e procurados, trabalhadores e desocupados. A lista é interminável! E pode apostar: todos não estão ligados à toa nos espaços. O problema é que eles se misturam e se confundem, enganam os outros e a nós mesmos, a ponto de não sabermos exatamente para quê, para quem e em que espaço estamos vivendo, trabalhando, respirando, pensando e fazendo sexo.
Tudo se confunde. Não há foco específico. Histórias importantes se perdem. E nós – que pensamos nestas questões – sabemos por quê.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Brasil: um país desigual. Até no futebol?!

Já escrevi neste blog que o Brasil é o país do futebol. A pretensão desta vez é falar de novo sobre o esporte mais praticado no país, mas com alguns questionamentos que surgiram depois de ler um artigo do antropólogo Marcos Altivo referente à elitização do futebol e sua suposta modernização, e que vou aproveitar para falar de obras de estádios pelo Brasil afora, que trazem consigo a expulsão (já nem se pode falar em exclusão) de torcedores pobres e outros aspectos para serem refletidos.
Para a Copa de 2014, estão previstos vários projetos de reformas nas cidades-sedes escolhidas. No site O Portal (clique aqui) é possível conferir como tendem a ficar os estádios que vão sediar os jogos do evento. Para se ter uma ideia, veja as estimativas que custarão aos cidadãos (inclui obras internas e nos arredores dos estádios):

Estádio Vivaldo Lima (Manaus): R$ 500 milhões.
Estádio Cícero Pompeu de Toledo, o Morumbi (São Paulo): R$ 180 milhões.
Estádio Governador Plácido Castelo (Fortaleza): R$ 300 milhões.
Estádio José Pinheiro Borda (Porto Alegre): R$ 150 milhões.
Estádio Mané Garrincha (Brasília): R$ 522 milhões.
Estádio Jornalista Mário Filho, o Maracanã (Rio de Janeiro): R$ 460 milhões.
Estádio Governador José Fragelli (Cuiabá): R$ 350 milhões.
Estádio Governador Magalhães Pinto, o Mineirão (Belo Horizonte): não divulgado.
Estádio Arena das Dunas (Natal): R$ 300 milhões.
Estádio Otávio Mangabeira (Salvador): R$ 231 milhões.
Estádio Arena da Baixada (Curitiba): R$ 140 milhões.
Estádio Cidade da Copa (Recife): R$ 1,6 bilhão (inclui construção de estádio, conjunto habitacional, centro comercial e hotel).

Com essas mudanças, não restam muitas dúvidas. Na própria feira internacional de negócios no futebol, a Soccerex - ocorrida em novembro no Rio de Janeiro - vários "especialistas" comentaram sobre a elitização do futebol (estes, claro, mostrando-se favoráveis), ficando em segundo plano o acesso das classes B e C, haja vista que aqueles que apresentam condições estruturais e financeiras ainda mais dramáticas há muito não sabem o que é sentar numa arquibancada.
Um dos fatores para se atingir tal nível de elitização e privilegiar a high society consiste no aumento do preço do ingresso: "Em Santa Catarina, o Avaí aumentou em 50% o preço dos ingressos neste ano, passando de R$ 40 para R$ 60. No Paraná, o recém-promovido Coritiba já anunciou que aqueles que não aderirem a seu plano de sócio torcedor terão que desembolsar R$ 100 pelo ingresso avulso. Não é de se admirar que a média de público do campeonato brasileiro em 2010 tenha sido ridiculamente baixa: 14.839 pagantes. Isso é menos que a média do campeonato alemão de segunda divisão", afirmou Marcos Altivo.
Além dos preços quase astronômicos para grande parte da população brasileira, o futebol virou espetáculo midiático atrelado a outro espetáculo, que é o publicitário.  Assim, uma rede de televisão (nem preciso dizer qual) que consegue monopolizar todo um campeonato e suas transmissões ao vivo consegue ter lucros exorbitantes, inclusive através do sistema "pay-per-view". Explicando de outra forma, através da monopolização de transmissão de jogos, o torcedor incapacitado de ir ao estádio, seja pelo valor do ingresso ou mesmo pela distância, muitas vezes se vê obrigado a adquirir um canal pago da televisão caso queira acompanhar todos os jogos de seu time (a minha recusa, por exemplo, está no fato de acompanhar o placar via internet, mesmo que me falte a parte visual).
É importante não perder de vista que esse processo de expulsão dos torcedores menos favorecidos ocorre de forma consciente e planejada. "Ainda em 2004, o então presidente do Atlético Paranaense já afirmava que 'o clube não precisa mais de torcedores, e sim de apreciadores do espetáculo'. Dentro dessa filosofia, proibiu a entrada de torcedores com bandeiras, tambores, faixas e camisas de torcidas organizadas. Por baixo de uma nuvem midiática vendendo a ideia de que estaria ocorrendo uma modernização do futebol brasileiro, o dinheiro do cidadão pobre financia, via impostos, sua própria expulsão. É um processo de Robin Hood ao contrário...", alegou Altivo.
De fato, parece piada falar em modernização do futebol contemporâneo, a começar pela própria estrutura política das organizações dos clubes e da própria CBF, que mais parece arcaica, medieval, praticamente feudal.
Dentro da sessão "Feudos, cavaleiros medievais, senhores e servos" podemos citar também a manipulação da venda de ingressos, que sempre param nas mãos de cambistas e que omite a renda verdadeira do jogo através de um sistema repleto de obscuridades, mas que sempre se atenta a beneficiar empresas que fabricam os ingressos, isso para não falar nos bandidos de terno, ou cartolas corruptos, se assim preferir.
Ainda nesta sessão, a vigilânica, o policiamento e a punição se dão de que modo? Esta pergunta eu nem preciso responder; todos sabem como funciona desde sempre. Para notarmos como essas mudanças que estão ocorrendo no futebol brasileiro podem ser chamadas de modernas... Pensando bem, esta parte podemos colocar nas eras geológicas mais antigas.
Quando eu escrevi, na época da Copa do Mundo deste ano, que o Brasil é o país do futebol, disse o seguinte: "Que o Brasil é o país do futebol, não há dúvidas, apesar do esporte não ter surgido por aqui. Em qualquer lugar que se anda é possível encontrar um estabelecimento de futebol society, um gramado, uma quadra não muito bem estruturada ou até mesmo uma rua improvisada que sirva de campo, tendo ou não areia, asfalto ou grama. Enfim, treinando em clubes ou na rua perto de casa, por onde se passa, aqui tem futebol". Claro que é isso mesmo que presenciamos em quase todos os lugares que passamos ao longo da vida, mas já que o assunto é a suposta modernização do esporte, Altivo também afirmou que " a parte menos moderna é o sistema de formação de jogadores. Milhões de jovens brasileiros sonham ser jogador de futebol. Poucos vão se tornar profissionais e, entre estes, pouquíssimos vão ganhar os altos salários que povoam o imaginário das classes populares". Pois é. Quantos são iludidos com os sonhos e promessas de um futuro e vida mais dignos caso se tornem profissionais de bola? Ao menos um cada quarteirão da sua cidade, chutando baixo.
Infelizmente esta arte e cultura popular criada e mantida por muitas gerações chegou ao fim e se tornou elitista e perversa, principalmente porque está sendo financiada com dinheiro público, do povo, e beneficia poucos. Este é o primeiro mandamento do futebol-mercadoria: dai aos ricos o futebol.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Voltando ao projeto moderno

Se tem um período que eu adoro discutir é a Era moderna. Isso mesmo, aquela que todo mundo estuda um pouco na escola. Desde seus primórdios até os dias de hoje, estudar a modernidade e não discutir o processo de racionalização é missão impossível. Com isso, não estou dizendo que só existe uma vertente para realizar boas análises deste período, que seria pela racionalização, mas quero dizer que esta é um elemento de análise extremamente importante porque representa o espírito do contexto social, econômico, político e do próprio homem imerso nesse momento da história.
Se você procurar no dicionário o significado do verbo racionalizar, encontrará mais ou menos o seguinte significado, de forma concisa: tornar racional. E quando estudamos a modernidade, é possível perceber que ela necessariamente passou por um processo de racionalização; o projeto moderno elaborado (eu diria que até improvisado) pelo grupo que assumiu o poder nesse período - a burguesia - estava pautado na ordem, no desmanche de tudo que o homem já havia criado, inclusive as próprias instituições, para instaurar definitivamente uma nova ordem e uma nova sociedade. 
Weber pensou muito na questão da racionalidade instrumental como princípio operativo da civilização moderna, ou seja, no modo de realizar este processo de ordem. Dentro do conjunto de conceitos de ações da linha weberiana, este tipo de atitude ou ação da modernidade está classificada como uma ação racional com relação a um objetivo (em alemão Zweckrational), tendo em vista que os instrumentos utilizados para estabelecer tal ordem foram racionalizados, calculados e planejados.
Não creio que hoje seja possível afirmar que ainda vivemos na concretização deste projeto. Para os que já leram outras postagens, defendo a hipótese de que realmente muitas coisas fogem ao nosso controle. Isso, no entanto, não quer dizer que o objetivo nunca foi atingido. Muito ao contrário: quer um exemplo de ordem mais poderoso que o fordismo? Particularmente desconheço.
Justificando este post, quis escrever um pouco sobre a racionalização porque na última sexta-feira, ocorreu-me um fato insólito, que não pode ser considerado coincidência, haja vista o grau de seriedade que ele representa quando se fala em racionalização num mundo que se encontra em perfeito descontrole.
Numa cidade grande, com crescimento desordenado e trânsito caótico, como espécie de treinamento de paciência, parei no sinal vermelho. Ao meu lado direito, parou um ônibus, cujo motorista aparentemente muito tranquilo sacou um jornal, abriu-o e começou a ler. Após um intervalo de tempo, dobrou o pedaço de papel, guardou-o, engatou o veículo e o sinal se abriu. Tudo no tempo certo, num tempo também racionalizado. Não foi sorte, não foi acaso. Tudo estritamente calculado, talvez pelos anos de profissão. Este acontecimento me deixou muito excitada, considerando que eu moro numa cidade pequena e não se vê esse tipo de coisa em momento algum. Pode ser que alguém diga que isso é coisa de criança feliz: "é que você não está acostumada, porque isso acontece direto". Ok, mas o importante é que, acontecendo ou não com frequência, este fato me fez pensar que sempre estamos planejando tudo, calculando tudo o que pode ser feito num determinado tempo, para aproveitá-lo da melhor maneira possível, economizá-lo e fazer a vida render. A cena que presenciei pareceu uma viagem no tempo, uma volta à finalidade do projeto moderno.
E depois o homem diz que o que realmente vale a pena é andar para frente. Ah, o homem moderno é mesmo um ser fascinante e contraditório!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Se o Jingle Bell não for suficiente

Gosto muito desta época natalina; acho que é porque as coisas tendem a ficar mais tranquilas e o meu espírito vai sossegando um pouco depois de mais um ano na loucura e na correria. Mas confesso que vejo este período como propício para a proliferação da hipocrisia. Afinal, todo mundo teve o ano inteiro para fazer boas ações, ir à missa e se sensibilizar com qualquer coisa, seja com a violência, com o meio ambiente, com o abandono, com a fome (e muitas que agora nem passam pela minha cabeça). É engraçado que todos resolvem, justo nessa época, abrir os corações e ficar mais solidário, mais pacífico, mais amável, mais educado. Este espírito contraditório do Natal realmente chega a me incomodar. Algo que deveria ser até um estilo de vida vira um espetáculo teatral como forma de remissão dos pecados. 
Enfim, tudo isso para dizer que para esta época do ano eu recomendo um álbum muito legal do Lynyrd Skynyrd, intitulado Christmas Time Again. Aqueles que me conhecem sabem o quanto o Rock é presente na minha vida. Claro que não poderia passar o fim de ano ouvindo "Noite Feliz" ou "Jingle Bell"; faltaria muita emoção. E em praticamente 36 minutos, a banda de southern rock deu um jeito de deixar meus Natais mais contagiantes. Uma excelente trilha sonora para qualquer pessoa. 


Christmas Time Again, do Lynyrd Skynyrd. Álbum lançado em 2000.

Quem desejar ouvir o álbum, pode fazer o download no Megaupload clicando aqui.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O poder do consumo em 30 segundos

Não poderia deixar de publicar alguma coisa a respeito de um e-mail que recebi recentemente. Diferente das piadinhas sexuais e agressões à política e ao governo Lula que estamos acostumados a receber em nossos e-mails, penso que este tende a ter uma circulação bem menor porque retrata a realidade de forma nua e não admitida pela maioria das pessoas.
O e-mail diz respeito ao comercial do Laptop da Xuxa e traz o depoimento de um pai publicado num jornal, cujo lamento está no fato de a filha querer desesperadamente o novo produto da estrela global porque sua felicidade parece depender do tal laptop.
Pois bem. Fui procurar o comercial e o que encontrei foi isso:


Cheio de efeitos visuais e super alegre, qualquer criança que assiste este comercial consegue ser convencida de que descer num arco-íris com um laptop da Xuxa é muito mais legal, divertido, interativo e até educativo que o papel e o lápis de colorir que, a meu ver, é uma combinação que ajuda a desenvolver a criatividade, o gosto pela arte e a expressão da nossa subjetividade. Notem que as meninas parecem até mais felizes quando estão com o laptop, a expressão facial é determinante para garantir que o produto é excelente.
Este comercial nos ensina que existe uma pedagogia do consumo ligada à publicidade infantil. Desde cedo as crianças começam a ter desejos consumistas porque a mídia perversa, os empresários e publicitários, todos perversos também, aproveitam-se da imaturidade e falta de discernimento de uma criança e inserem nela um mundo de fantasias que muitas vezes nem existe, mas que traz a promessa de felicidade. Assim como o trabalho deturpa os valores e a subjetividade dos homens, a marca do desejo é inscrita precocemente na infância e corrompe a subjetividade.
Quando vi este anúncio, lembrei de uma amiga que adora falar que a filha dela se parece com a Barbie, primeiro porque ela segue os padrões da boneca mais desejada do mundo. Segundo porque a garota está sendo educada desde cedo a ter esses objetos de Barbies e Xuxas que estão pelo mundo afora e que formarão sua identidade. Isso é extremamente perigoso.
Ninguém, a não ser os pais, podem educar as crianças para a vida. Com o espetáculo midiático não se pode contar, uma vez que o mesmo educa de forma poderosa para o consumo que, de fato, muitas vezes não é necessário e vital, não fosse a insistência de que ter o produto pode fazer o indivíduo feliz. Aqui no Brasil não se tem o cuidado com as programações infantis, as propagandas não são reguladas e criam a ilusão de que todos são livres para terem o que desejarem. Pura ilusão! Isso é tão verdade porque basta analisar o desejo e o desespero de crianças de famílias extremamente carentes¹, que estão igualmente expostas à invasiva, massiva, cruel e desumana publicidade infantil.
Fica a pergunta para refletirmos: O que se pode esperar de uma sociedade na qual interesses comerciais se sobrepõem aos cuidados básicos com a infância?

Notas:
1 - Fazendo uma analogia com o assunto, ontem li um comentário da antropóloga Mariana Cavalcanti sobre as casas dos traficantes da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão que possuem ar-condicionado, piscina e TV de plasma: "Não entendo a surpresa das pessoas com as banheiras de hidromassagem, as piscinas, as TVs, o quadro do artista pop juvenil na parede encontrados ali. Ora, são os valores da nossa sociedade, do capitalismo, que os tornam objetos de desejo. Os traficantes são socializados nessa cultura do consumo, como todos nós. A opção pelo tráfico se dá pelo status [...], mas se dá primordialmente pela possibilidade de ter bens de consumo".

domingo, 28 de novembro de 2010

A Cidade Maravilhosa e o seu lado nada maravilhoso


São dois os fatos que resumem esse combate no Rio de Janeiro: a ausência de uma política abrangente de combate ao tráfico e a desordem da sociedade da favela – não que este último seja uma espécie de preconceito, pois eu darei as devidas explicações.
As cenas não são inéditas na “Cidade Maravilhosa” e se repetem desde a década de 1990: vários dias de luta armada, veículos incendiados, cidadãos mortos, além dos feridos, das vítimas inocentes e de outros sendo presos. No entanto, por mais que estejamos acostumados às imagens de violência transmitidas pela mídia diariamente, é importante deixar claro que esses crimes não são comuns tendo em vista alguns fatores.
Primeiro, quando se fala em crime, associa-se facilmente a assaltos, roubos, agressões, assassinatos e, como afirma o sociólogo Zé Martins, ao sujeito socialmente destrutivo. Mas esse não é o caso do Rio, não é a mesma coisa que o ato de repressão à criminalidade que, esta sim, é relativamente organizada, detentora – não de forma legítima e institucional – de um território e, acima de tudo, é bem armada e ubíqua. Isso nos mostra que a concepção de combate ao crime, ao inimigo, está obsoleta e os últimos acontecimentos, por sua vez, refletem a veracidade da afirmação que acabou de ser feita.
Segundo, o território do Alemão há muito tempo está sob a tutela de um regime paralelo ao do Estado, com administração, economia, justiça e forças militares próprias, resistentes ao enquadramento, às leis do Estado. Isso faz com que não estejamos diante de um crime comum. O tráfico de drogas gerenciado pelos grupos armados anuncia uma independência tanto política quanto territorial das favelas do Rio de Janeiro. O tráfico, a peste do complexo, não só está a serviço da potência estrangeira, mas também representa uma ameaça à segurança nacional, ao futuro do cidadão e habitante do local, à formação da identidade e noção de pertencimento, aquela que nos revela a condição de povo brasileiro, sem contar que ele condena, sem clemência, o indivíduo a ser ninguém.
“Se não houver uma política coerente e de conjunto que desvende e desmantele as conexões entre o usuário de drogas e o produtor, o fornecedor e o distribuidor, em poucos dias as ligações criminosas se restabelecerão”, afirma Zé Martins.
De fato, é necessária uma política abrangente de combate ao tráfico. Caso contrário, haverá apenas um intervalo até presenciarmos essas demonstrações criminosas. Agora, face à Copa do Mundo e aos Jogos Olímpicos, a preocupação reside, sinceramente, na intervenção militar e ocupação dos morros cariocas a fim de garantir segurança aos visitantes e estrangeiros, quer dizer, dos que estão de passagem, e não dos que se encontram diariamente lá, os nativos. Estes ainda estarão submetidos à sedução do tráfico e às balas perdidas, mal sabendo se no dia seguinte estarão vivos e, caso estiverem, continuarão a trabalhar normalmente, sem saber se voltarão ao campo de batalha. Esta é a desordem da sociedade da favela, produtora da cultura do medo, da ameaça constante, da ausência de esperança, da dúvida, da incerteza. Como construir uma sociedade baseada nesses “valores” e não cair no conformismo? Difícil e, acima de tudo, inaceitável.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Enquanto isso, na Cidade Maravilhosa...

El Ámbito - Argentina

El Ámbito - Argentina

El Mercurio - Chile


El Mercurio - Chile


Le Monde - França


Le Monde - França

New York Times - EUA
 
Eel Mundo - Espanha

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A oportunidade que faltava

Este ano tive a oportunidade de me deparar com uma realidade da qual, sinceramente, eu não faço parte. Estive envolvida num projeto de uma escola municipal da minha cidade e, por motivos pessoais, hoje foi dado o aviso à direção de que não poderei continuar. Um choque, como era de se esperar. 
Durante os dias que trabalhei lá, várias vezes me encontrei com o psicológico totalmente modificado: gritos, brigas, violência verbal, polícia, histórias ligadas diretamente ao tráfico. Não se trata apenas de uma escola, mas de uma região da cidade que apresenta diversos problemas relacionados à carência, à educação e à estrutura social. Para quem não está acostumado a se defrontar com esta realidade, fica séria e realmente abatido, quando não preocupado. 
O projeto, no entanto, vingou. Uma simples oficina de jornal que atraiu poucas pessoas desde o início e que apenas colocaram seus textos e imagens no mural da escola, com poucas chances de reconhecimento pelos demais alunos, terão, dentro de uma semana, suas produções estampadas na cidade, na Secretaria de Educação, na Prefeitura, na comunidade, na própria escola. Esta é a prova de que o empenho daqueles que persistiram apesar de todas as dificuldades técnicas (sim, o projeto foi falho em muitas ocasiões) serão reconhecidos publicamente.
O contexto em que os estudantes e moradores da região estão inseridos não é dos mais fáceis. Porém, não só no projeto que fiquei encarregada de gerar - e que agora alguém dará continuidade - mas em todos os outros projetos foi possível perceber que há talentos, habilidades e conhecimento sobrando em alguns alunos, e que por um infortúnio do sistema capitalista estavam adormecidos e lhes faltou oportunidade de expressá-los. A esperança que eu tenho é a de que eles consigam o que estão desejando, porque já lhes roubaram muitas coisas em suas vidas, mas não os seus desejos e sonhos para o futuro. Estando de fato com eles, aprendi que mereciam oportunidades que muitos indivíduos de outras camadas sociais possuem ou têm acesso e não sabem aproveitar e não lhes dão o devido valor.
Não querendo deixar o meu lado poético em forma eclíptica, há uma música que define muito bem esses jovens que, apesar de terem um futuro incerto, são dignos, humildes e formadores de opinião:

Os que moram do outro lado do muro
Nunca vão saber o que se passa no subúrbio
Eles te consideram um plebeu repugnante
Eles te chamam de garoto podre.

Se está desempregado,
Te chamam de vagabundo.
Se fizer greve,
Te chamam de subversivo.
Mas se arrumar emprego,
Não lhe dão dignidade
Apesar do sujo macacão e do rosto suado. 
(Garotos Podres - Garoto Podre)

sábado, 13 de novembro de 2010

O pequeno blog

Nesses últimos dias pensei o que iria acontecer se por ventura eu fosse o Pequeno Príncipe e este blog, a raposa. Ela certamente diria:
- Lembra do que eu te disse, Pequeno Príncipe? Tu te tornas eternamente responsável pelo que cativas. Tu cuidaste das tuas mil coisas, mas esqueceste de me alimentar.
Aí, como o princepezinho sempre fez, abaixaria a cabeça, pensaria um pouco e repetiria todas as palavras da raposa.
Não tenho nada contra este grande clássico e creio que ele ensina muito mais que diversos livros por aí que dizemos ser de "gente grande", mas o fato é que reconheço ter desandado minimamente com o andamento do blog.
E quando isso acontece, fico plenamente convencida de que valeu muito a pena ter me dedicado o ano todo estudando nossa relação com o tempo, com a vida e com o convívio com o outro. Assim como a maioria, eu sou "contemplada" praticamente todos os dias com o tempo do trabalho, e é muito comum não sobrar tempo para tudo que se tem vontade - estar neste blog, inclusive - porque a verdade é que o tempo do trabalho se mistura com o nosso tempo social, aquele que temos para descansar, ler, ouvir música, praticar um exercício físico, viajar, cuidar dos filhos e do cachorro, pintar as unhas, namorar, tomar sorvete, ir ao mercado, passear no shopping, regar o jardim, limpar a casa toda.
Quem depende do tempo do trabalho precisa abdicar e renunciar muitas coisas na vida, nem sempre por causa de dinheiro, mas muitas vezes por uma questão de tempo: como realizar todas as atividades mencionadas anteriormente, por exemplo, num espaço muito curto de tempo? Ah sim, com certeza virá um consultor de alguma coisa dizendo que "tudo é questão de planejamento". Não é. (Viver uma vida inteira planejada, sem surpresas, decepções e com uma rotina perpétua não é nem um pouco motivante). Só é necessário ter consciência de que não sobra tempo para fazer tudo o que se gostaria de fazer e que existe uma lógica imposta negativamente sobre o ócio; as pessoas devem fazer tudo o que querem e não devem medir esforços para fazer qualquer coisa que se tenha vontade. O importante é também não ficar perdendo tempo, ficando parado e ver a vida passar como quem senta ao lado da janela de um trem que está rumando ninguém sabe para onde. 
Uma vida tumultuada? Também não quero. Por isso que tenho insistido e pensado constantemente na melhor forma de usufruir o tempo, ainda que seja perdê-lo. Por que é necessário estar sempre cheio de ocupações? Por que não se pode parar um pouco, mesmo que o tempo não páre? Como uma amiga já me disse uma vez, precisamos aprender a perder tempo. Ele é o tecido de nossa vida.

domingo, 31 de outubro de 2010

O naufrágio do Tucanic

Charge tirada do Blog Conversa Afiada
Alguém escuta. Espera. Prende
o fôlego, bem perto,
aqui. E diz: aquele que fala sou eu.

[...]
Não há ninguém aqui além
de quem diz: só pode ser eu.
Eu espero, prendo o fôlego,
escuto. O ruído ao longe

nos ouvidos, essas antenas
de carne tenra, nada significa.
É apenas o sangue

que bate nas veias.
Esperei muito tempo,
com o fôlego preso.
(ENZENBERGER, Hans Magnus. O naufrágio do Titanic: uma comédia. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. Canto primeiro: Alguém escuta)