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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Espaço e sociedade: um intercâmbio consumista e delineado

O texto abaixo eu escrevi há um tempo, mas tem a ver com os assuntos que são discorridos neste blog, especialmente sobre o estilo de vida "moderno". Ele engloba várias questões, inclusive uma que está chegando na globo (com letra minúscula, sim) em sua décima-não-sei-qual temporada. 


Nada é orgânico, é tudo programado. E eu achando que tinha me libertado...

Sociedade de controle. Ditadura da beleza. Geração de botões. Se essas denominações representam muito bem nossa sociedade atualmente, já é possível notar que a idéia de liberdade e democracia plenas não é verdadeira e não condiz com a realidade propriamente dita, apesar de assistirmos, a cada dia, à mais nova ilusão criada pela mídia e pelo mercado de consumo.

Não há dúvidas de que somos socializados pela imagem; esta é, incontestavelmente, a afirmação do discurso predominante na sociedade, aquele que nos diz o que fazer, como agir, o que ter e o que ser, como condições necessárias para garantirmos nossa felicidade. Portanto, a concepção de que nossa subjetividade é capturada não só é válida, como se faz presente em diversos aspectos da vida.
Somos escravizados pelos padrões de beleza que nos são impostos. São tantas as propagandas afirmando que o mundo cai aos pés das mulheres consideradas lindas que o mercado só tem a ganhar ao difundir esses ideais, pois a lógica do consumo só consegue sobreviver enquanto houver pessoas insatisfeitas e dispostas a pagar – muitas vezes – o preço mais caro para tentar atingir determinado padrão.
Tudo se trata de uma questão óbvia, que é o culto à beleza efêmera (uma vez que não se tem valores sólidos) e sua ligação com o tempo irrefletido.
Mas esta relação entre consumo e mídia não termina aí. Ela perpassa por todos os produtos que temos à disposição. Não há o que esconder: o propósito, a finalidade do mercado é o apego ao lucro sem critérios específicos. O cerne da questão está no fetiche da mercadoria; consumir torna-se algo extremamente prazeroso (e perigoso) que a graça está justamente na satisfação do desejo de comprar, independentemente do que foi consumido ter ou não alguma utilidade.
A publicidade tornou-se uma arma potente. A mídia, em geral, é capaz de nos apresentar algo de que não precisamos, inserindo nesses produtos tudo o que nos falta, todas as qualidades que completam necessidades subjetivas formadoras da personalidade e na vida cotidiana, como poder, coragem, ousadia, charme, capacidade de decisão, sensualidade... Enfim, valores e atributos apropriados para nos tornarem indivíduos com sucesso na vida profissional, afetiva e assim por diante.
Se por um lado o mercado não descansa, do outro se tem o investimento maciço em venda de ilusões. Outra estratégia é a superexposição do privado; somos vigiados constantemente. Esta vigilância se faz presente para nos lembrar, a todo o momento, de que alguém está de olho em nossas ações, o que fazemos ou deixamos de fazer é socializado com todos.
É por isso que a privacidade virou um espetáculo. O sentido dessa exposição deveria trazer algo lucrativo para alguém. Dito e feito. Não bastassem as câmeras nos elevadores, condomínios, lojas, ruas (primeiro com a justificativa de segurança, como se o espaço privado que se tornou público fosse mera conseqüência), os realities shows vieram a todo vapor, com a proposta de sucesso garantido àqueles que estivessem dispostos a compartilhar os momentos mais íntimos de seu cotidiano. 
Isso é de uma seriedade sem tamanho. Mais uma vez a subjetividade foi apreendida. Uma vez que se está conectado por câmeras, o indivíduo muda. A vida é outra, não há espontaneidade, pois todos os gestos passam a ser calculados e a pessoa se torna um pacote aberto por outras.
Há ainda uma última observação no que concerne ao domínio de espaços, que são os limites do espaço real e virtual. O mundo virtual toma conta do espaço real e é como tal: tem todo tipo de gente. Gente revoltada e sossegada, gente interesseira e interessante, felizes e insatisfeitos, inteligentes e ignorantes, sãos e insanos, pesquisadores e procurados, trabalhadores e desocupados. A lista é interminável! E pode apostar: todos não estão ligados à toa nos espaços. O problema é que eles se misturam e se confundem, enganam os outros e a nós mesmos, a ponto de não sabermos exatamente para quê, para quem e em que espaço estamos vivendo, trabalhando, respirando, pensando e fazendo sexo.
Tudo se confunde. Não há foco específico. Histórias importantes se perdem. E nós – que pensamos nestas questões – sabemos por quê.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O poder do consumo em 30 segundos

Não poderia deixar de publicar alguma coisa a respeito de um e-mail que recebi recentemente. Diferente das piadinhas sexuais e agressões à política e ao governo Lula que estamos acostumados a receber em nossos e-mails, penso que este tende a ter uma circulação bem menor porque retrata a realidade de forma nua e não admitida pela maioria das pessoas.
O e-mail diz respeito ao comercial do Laptop da Xuxa e traz o depoimento de um pai publicado num jornal, cujo lamento está no fato de a filha querer desesperadamente o novo produto da estrela global porque sua felicidade parece depender do tal laptop.
Pois bem. Fui procurar o comercial e o que encontrei foi isso:


Cheio de efeitos visuais e super alegre, qualquer criança que assiste este comercial consegue ser convencida de que descer num arco-íris com um laptop da Xuxa é muito mais legal, divertido, interativo e até educativo que o papel e o lápis de colorir que, a meu ver, é uma combinação que ajuda a desenvolver a criatividade, o gosto pela arte e a expressão da nossa subjetividade. Notem que as meninas parecem até mais felizes quando estão com o laptop, a expressão facial é determinante para garantir que o produto é excelente.
Este comercial nos ensina que existe uma pedagogia do consumo ligada à publicidade infantil. Desde cedo as crianças começam a ter desejos consumistas porque a mídia perversa, os empresários e publicitários, todos perversos também, aproveitam-se da imaturidade e falta de discernimento de uma criança e inserem nela um mundo de fantasias que muitas vezes nem existe, mas que traz a promessa de felicidade. Assim como o trabalho deturpa os valores e a subjetividade dos homens, a marca do desejo é inscrita precocemente na infância e corrompe a subjetividade.
Quando vi este anúncio, lembrei de uma amiga que adora falar que a filha dela se parece com a Barbie, primeiro porque ela segue os padrões da boneca mais desejada do mundo. Segundo porque a garota está sendo educada desde cedo a ter esses objetos de Barbies e Xuxas que estão pelo mundo afora e que formarão sua identidade. Isso é extremamente perigoso.
Ninguém, a não ser os pais, podem educar as crianças para a vida. Com o espetáculo midiático não se pode contar, uma vez que o mesmo educa de forma poderosa para o consumo que, de fato, muitas vezes não é necessário e vital, não fosse a insistência de que ter o produto pode fazer o indivíduo feliz. Aqui no Brasil não se tem o cuidado com as programações infantis, as propagandas não são reguladas e criam a ilusão de que todos são livres para terem o que desejarem. Pura ilusão! Isso é tão verdade porque basta analisar o desejo e o desespero de crianças de famílias extremamente carentes¹, que estão igualmente expostas à invasiva, massiva, cruel e desumana publicidade infantil.
Fica a pergunta para refletirmos: O que se pode esperar de uma sociedade na qual interesses comerciais se sobrepõem aos cuidados básicos com a infância?

Notas:
1 - Fazendo uma analogia com o assunto, ontem li um comentário da antropóloga Mariana Cavalcanti sobre as casas dos traficantes da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão que possuem ar-condicionado, piscina e TV de plasma: "Não entendo a surpresa das pessoas com as banheiras de hidromassagem, as piscinas, as TVs, o quadro do artista pop juvenil na parede encontrados ali. Ora, são os valores da nossa sociedade, do capitalismo, que os tornam objetos de desejo. Os traficantes são socializados nessa cultura do consumo, como todos nós. A opção pelo tráfico se dá pelo status [...], mas se dá primordialmente pela possibilidade de ter bens de consumo".