Este ano tive a oportunidade de me deparar com uma realidade da qual, sinceramente, eu não faço parte. Estive envolvida num projeto de uma escola municipal da minha cidade e, por motivos pessoais, hoje foi dado o aviso à direção de que não poderei continuar. Um choque, como era de se esperar.
Durante os dias que trabalhei lá, várias vezes me encontrei com o psicológico totalmente modificado: gritos, brigas, violência verbal, polícia, histórias ligadas diretamente ao tráfico. Não se trata apenas de uma escola, mas de uma região da cidade que apresenta diversos problemas relacionados à carência, à educação e à estrutura social. Para quem não está acostumado a se defrontar com esta realidade, fica séria e realmente abatido, quando não preocupado.
O projeto, no entanto, vingou. Uma simples oficina de jornal que atraiu poucas pessoas desde o início e que apenas colocaram seus textos e imagens no mural da escola, com poucas chances de reconhecimento pelos demais alunos, terão, dentro de uma semana, suas produções estampadas na cidade, na Secretaria de Educação, na Prefeitura, na comunidade, na própria escola. Esta é a prova de que o empenho daqueles que persistiram apesar de todas as dificuldades técnicas (sim, o projeto foi falho em muitas ocasiões) serão reconhecidos publicamente.
O contexto em que os estudantes e moradores da região estão inseridos não é dos mais fáceis. Porém, não só no projeto que fiquei encarregada de gerar - e que agora alguém dará continuidade - mas em todos os outros projetos foi possível perceber que há talentos, habilidades e conhecimento sobrando em alguns alunos, e que por um infortúnio do sistema capitalista estavam adormecidos e lhes faltou oportunidade de expressá-los. A esperança que eu tenho é a de que eles consigam o que estão desejando, porque já lhes roubaram muitas coisas em suas vidas, mas não os seus desejos e sonhos para o futuro. Estando de fato com eles, aprendi que mereciam oportunidades que muitos indivíduos de outras camadas sociais possuem ou têm acesso e não sabem aproveitar e não lhes dão o devido valor.
Não querendo deixar o meu lado poético em forma eclíptica, há uma música que define muito bem esses jovens que, apesar de terem um futuro incerto, são dignos, humildes e formadores de opinião:
Os que moram do outro lado do muro
Nunca vão saber o que se passa no subúrbio
Eles te consideram um plebeu repugnante
Eles te chamam de garoto podre.
Se está desempregado,
Te chamam de vagabundo.
Se fizer greve,
Te chamam de subversivo.
Mas se arrumar emprego,
Não lhe dão dignidade
Apesar do sujo macacão e do rosto suado.
(Garotos Podres - Garoto Podre)
Nenhum comentário:
Postar um comentário