Não poderia deixar de publicar alguma coisa a respeito de um e-mail que recebi recentemente. Diferente das piadinhas sexuais e agressões à política e ao governo Lula que estamos acostumados a receber em nossos e-mails, penso que este tende a ter uma circulação bem menor porque retrata a realidade de forma nua e não admitida pela maioria das pessoas.
O e-mail diz respeito ao comercial do Laptop da Xuxa e traz o depoimento de um pai publicado num jornal, cujo lamento está no fato de a filha querer desesperadamente o novo produto da estrela global porque sua felicidade parece depender do tal laptop.
Pois bem. Fui procurar o comercial e o que encontrei foi isso:
Cheio de efeitos visuais e super alegre, qualquer criança que assiste este comercial consegue ser convencida de que descer num arco-íris com um laptop da Xuxa é muito mais legal, divertido, interativo e até educativo que o papel e o lápis de colorir que, a meu ver, é uma combinação que ajuda a desenvolver a criatividade, o gosto pela arte e a expressão da nossa subjetividade. Notem que as meninas parecem até mais felizes quando estão com o laptop, a expressão facial é determinante para garantir que o produto é excelente.
Este comercial nos ensina que existe uma pedagogia do consumo ligada à publicidade infantil. Desde cedo as crianças começam a ter desejos consumistas porque a mídia perversa, os empresários e publicitários, todos perversos também, aproveitam-se da imaturidade e falta de discernimento de uma criança e inserem nela um mundo de fantasias que muitas vezes nem existe, mas que traz a promessa de felicidade. Assim como o trabalho deturpa os valores e a subjetividade dos homens, a marca do desejo é inscrita precocemente na infância e corrompe a subjetividade.
Quando vi este anúncio, lembrei de uma amiga que adora falar que a filha dela se parece com a Barbie, primeiro porque ela segue os padrões da boneca mais desejada do mundo. Segundo porque a garota está sendo educada desde cedo a ter esses objetos de Barbies e Xuxas que estão pelo mundo afora e que formarão sua identidade. Isso é extremamente perigoso.
Ninguém, a não ser os pais, podem educar as crianças para a vida. Com o espetáculo midiático não se pode contar, uma vez que o mesmo educa de forma poderosa para o consumo que, de fato, muitas vezes não é necessário e vital, não fosse a insistência de que ter o produto pode fazer o indivíduo feliz. Aqui no Brasil não se tem o cuidado com as programações infantis, as propagandas não são reguladas e criam a ilusão de que todos são livres para terem o que desejarem. Pura ilusão! Isso é tão verdade porque basta analisar o desejo e o desespero de crianças de famílias extremamente carentes¹, que estão igualmente expostas à invasiva, massiva, cruel e desumana publicidade infantil.
Fica a pergunta para refletirmos: O que se pode esperar de uma sociedade na qual interesses comerciais se sobrepõem aos cuidados básicos com a infância?
Notas:
1 - Fazendo uma analogia com o assunto, ontem li um comentário da antropóloga Mariana Cavalcanti sobre as casas dos traficantes da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão que possuem ar-condicionado, piscina e TV de plasma: "Não entendo a surpresa das pessoas com as banheiras de hidromassagem, as piscinas, as TVs, o quadro do artista pop juvenil na parede encontrados ali. Ora, são os valores da nossa sociedade, do capitalismo, que os tornam objetos de desejo. Os traficantes são socializados nessa cultura do consumo, como todos nós. A opção pelo tráfico se dá pelo status [...], mas se dá primordialmente pela possibilidade de ter bens de consumo".
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