segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Uma camiseta que deu pano para manga

Em março deste ano, participei de um curso voltado ao entendimento da sociedade e do modo de produção capitalista. Faz quatro anos que este tem sido um dos principais focos de meus estudos. O Fábio, do Núcleo de Educação Popular 13 de Maio de São Paulo, foi responsável por tal curso.
O que mais me chamou a atenção, em dois dias de discussão, durante 16 horas, não foi o ótimo discernimento do Fábio, seu conhecimento acadêmico apesar de não ser graduado em curso algum ou seu excesso de palavrões que saíram espontaneamente e com um bom humor que arrancou algumas risadas. Foi simplesmente a camiseta que ele usou, um tanto polêmica, intrigante e inusitada. Ela trazia uma imagem no mínimo interessante, que me fez pensar o quanto somos diferentes e como estamos focados e nos preocupamos com coisas totalmente diversas: o camundongo Mickey Mouse, o palhaço Ronald McDonald e uma garota que foi a cara e o símbolo de uma guerra: Phan Thi Kim Phuc, uma das "protagonistas" da Guerra do Vietnã. Isso mesmo, aquela menina que está na clássica foto do conflito correndo, nua, chorando, queimada.
Na camiseta, os personagens norte-americanos aparecem de mãos dadas, com Phan ao centro. Eles estão sorridentes e esbanjando alegria, para não perder o hábito. Aliás, eu gostaria de questionar quem é o público que o Mickey e o Ronald McDonald trazem alegria, porque eles são praticamente inacessíveis a boa parte da população mundial. Esta imagem representa não só o conflito travado entre Estados Unidos e Vietnã (na época, do Norte), mas a séria dívida que temos com a História, que é - e sempre foi - contada sob o ponto de vista dos vencedores, e não dos vencidos. E mesmo que neste caso o Vietnã tenha ganho a guerra, Phan foi esquecida. Mickey e Donald triunfam desde suas criações sob a égide da hegemonia norte-americana. Esta representação, por mais simples e ilustrativa que seja, tem caráter complexo e reflexivo.
Ficam, portanto, algumas perguntas: de que forma pensamos e agimos sobre o mundo? Como analisamos a nossa própria história, a história dos outros, os eventos sociais e políticos? Afinal, o que consideramos realmente importante neste mundo: a fantasia ou a dignidade?

Obra genial do artista de rua britânico Banksy

Um comentário:

  1. Nossa, essa estampa é genial mesmo.

    Salve !

    Eu diria até que a Phan representa as pessoas de todo o mundo sendo conduzidas pelos "Atos de Violência", sabendo-se que "violento mesmo é ficar se drogando na frente da tv, vendo MTV".

    um beijão Raquel.

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