No último post, comentei um pouco sobre a indústria cultural relacionada à publicidade, ao apelo estético, a um padrão de comportamento e pensamentos dados como prontos.
A juventude corresponde ao grupo mais atingido por este fenômeno. Ela é o público alvo do sistema. Um bom exemplo que confirma esta tese é a música. Márcia Tiburi, tendo pensado nesta questão, foi direto ao ponto e às conseqüências também: “Imagine que um empresário inventa uma banda com os bonitinhos de plantão, veste-os do jeito que tem que ser e vende essas pessoas que carregam uma mensagem. A mensagem que elas trazem nunca é perigosa e reflexiva. É sempre o velho papo do amor, que cobre as diferenças, a política”.
Repare que Márcia usa os termos inventar uma banda (quer dizer, o talento e a qualidade não estão em questão) e vender essas pessoas (que foram produzidas pelo sistema com a esta finalidade).
A declaração de Márcia é tão verdadeira que podemos comparar outras juventudes para afirmar o quanto esta, dos dias de hoje, é conservadora (eu diria que, até certo ponto, careta), não só pelo embasamento ideológico de sua estrutura – pois particularmente vejo que até os menos favorecidos economicamente são conservadores – mas pela ausência de questionamentos e indagações que poderiam gerar novas formas de ver o mundo: a juventude é conservadora com algo que foi aprendido dias atrás, e não há anos para analisar as experiências vividas.
O importante também é deixar claro que cada juventude vive num tempo preciso e num contexto muito específico, com normas, valores e ideais peculiares. No entanto, os ideais parecem estar camuflados, ninguém briga por nada, como se tudo já tivesse sido conquistado pelas gerações anteriores, principalmente a democracia e a liberdade de expressão.
Nós temos muitos exemplos no século XX do quanto é possível nadar contra a correnteza e ter um estilo de vida próprio, que foge às regras básicas. Poderia falar de várias tendências que surgiram ao longo das décadas (a geração beat, a tropicália, os caras pintadas, os punks, entre outras), mas um dos grandes ícones em rebeldia e busca de causas para lutar foi James Dean. Eu admiro demais a figura de James Dean, ainda que ele tenha sido um produto criado (e este detalhe não deve passar despercebido: seu caráter rebelde foi inventado, send fruto de uma produção). Mas se ele estivesse vivo hoje, certamente diria que a falta de rebeldia da juventude é um sintoma da indústria cultural – e isso o deixaria apavorado. Tentaria de todo modo encontrar algo para se rebelar; um mundo com tantos problemas e tantos jovens acomodados soa como anormal.
Além de já ter citado o exemplo musical, no Blog do James¹ ele comenta um pouco sobre a moda e a ausência de rebeldia: “Para começar, falta um uniforme pertencente a uma só geração. Na minha época, bastavam uma jaqueta de couro, um jeans surrado e um topete, e pronto. Qualquer um na rua apontaria: olhe lá um jovem rebelde. Essas roupas estão nas vitrines de qualquer lojinha convencional de shopping ou no corpo de um cinquentão. Roupa suja? Não dá, as roupas já vêm fantasiadas de imundas. Tudo está na moda. Não é possível chocar ninguém”.
Outros dois exemplos que vêm à mente agora: as calças rasgadas dos punks, as camisas de Che Guevara para os revolucionários socialistas. Tudo hoje é moda.
Voltando na questão da indústria cultural, vendo a juventude corrompida e engolida por este mal (que não é necessário!), que não tem sonhos e utopias de revolução (ainda que no processo de amadurecimento eles fossem deixados para trás e esquecidos), a grande preocupação de Adorno e Horkeimer era justamente esta: o modo de produzir e reproduzir a própria existência das pessoas, um processo mecanizado, com pensamentos prontos e verdades incontestáveis.
Por isso que esta semana eu dei um aviso a certos alunos (aqueles que eu ainda acredito que serão capazes de se desviar das tendências): Se não for agora, se a agitação e o questionamento não vierem agora, não virão nunca mais!
PS: É possível entender por que o rock cria o tempo de rebeldia; é o gênero que sempre se mostrou disposto a fugir de padrões, encarar nos olhos a realidade – nua e crua – e levantar uma bandeira própria. Pena que essas bandas inventadas e vendidas não são capazes de fazer o mesmo hoje. Ainda escreverei sobre isso.
Notas:
1 - O Blog do James Dean é um dos blogs de personalidades do Blogs do Além.
Notas:
1 - O Blog do James Dean é um dos blogs de personalidades do Blogs do Além.
o pessoal de hoje é rebelde sem causa!
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