terça-feira, 23 de março de 2010

Ser indivíduo: a mudança das instituições sociais e o sofrimento

O que nos define enquanto indivíduos?
Ser pessoa, ser sujeito. Não importa. Estamos falando precisamente do homem enquanto ser social. Sendo assim, existem duas dimensões para conseguirmos nos definir. A primeira é uma dimensão universal. Se é universal, é geral. Logo, segundo esta dimensão, somos todos iguais. Contraditoriamente, há uma dimensão singular. Se é singular, é peculiar, individual. Portanto, somos todos diferentes. Em função de quê? Do contexto sócio-histórico que cada um está inserido, do conjunto de experiências, que são as mais variadas de um indivíduo para outro. Não sejamos demagogos: este contexto sócio-histórico a que me refiro é determinante em nossa história.


Sociedade tradicional e sociedade contemporânea

Nas chamadas sociedades tradicionais – aquelas que antecedem fatos históricos que desencadeiam o período moderno, ou mesmo as comunidades que se sustentam até hoje à base das tradições como algo mais forte que as rápidas transformações – temos como sentido da existência (ou seja, aquilo que constitui a designação do homem enquanto sujeito) as instituições sólidas: Igreja, religião, a família, o trabalho. São instituições que representam o homem e seu contexto histórico e social e – por que não? – sua vida.
Na sociedade moderna e contemporânea, essas instituições, enquanto valores também, vão se diluir porque serão muito particulares, a começar pelo fato de que o passado tem pouco (ou nenhum) valor; há, sim, uma grande expectativa na ciência e uma fé inabalável no futuro. Afinal de contas, o homem passa a ser um valor universal e isso quer dizer que a vida é o que as pessoas fazem dela. Mas...


O que fazer da nossa vida?

É verdade que os referenciais sólidos se fragilizaram. A mudança brutal de instituições e valores na sociedade contemporânea trouxe novos horizontes, mas também trouxe novos problemas, novos sofrimentos ao ser humano. O que está em jogo nessas novas formas de sofrimento?
Se o homem por si só é um valor, isso nos remete à lógica do individualismo e nos dá o direito de contestar quaisquer outros valores. Quer dizer, devemos obediência a quem se estamos falando da soberania do indivíduo?
Acontece, porém, que o problema reside justamente nessa idéia de soberania, pois nos deparamos constantemente com uma sociedade que diz: “Olha, para ser soberano, para ser autônomo, é preciso ter iniciativa, é preciso que você tenha sucesso em tudo que fizer”. Mas quem consegue estar em autonomia plena o tempo todo? Quem consegue desenvolver todas as atividades e assumir tantos compromissos sem falhar ao menos uma vez? Somos seres humanos. Somos frágeis e imperfeitos. Será que não poderíamos pensar que a epidemia de depressão presente na sociedade hoje é a expressão do fracasso imaginário que diz que devemos ser bem sucedidos? Se isso é verdade, não podemos dizer que temos uma predominância de um falso humanismo (humanismo enquanto corrente filosófica que gera o antropocentrismo e a valorização do homem) uma vez que deveríamos valorizar o ser humano e não o individualismo e o sucesso a qualquer custo?


"Apoio intelectual" do programa Café Filosófico

2 comentários:

  1. Sua técnica filosófica me assusta... De onde parte a Filosofia??? Da técnica ou da alma??? De onde Jesus (o homem) tirou toda aquela filosofia???

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  2. Muito bom... Não poderia ser diferente, claro!

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