Se tem algo que muito me incomoda é a mania de certas pessoas acharem que esta sociedade é livre, que vivemos numa “democracia” que nos possibilita escolher representantes, que cada um pode fazer o que quiser, comprar o que bem entender, escolher como viver. Enfim, é como se a liberdade fosse uma idéia anterior aos indivíduos e estivesse constituída na consciência coletiva.
Poderia dizer simplesmente que isto está errado e ponto final. Ou poderia dar explicações para não concordar, e aí os caminhos são muitos. Poderia pensar nesse processo de forma ideológica, pois segundo Carlos Will Ludvig, “a ideologia pode ser entendida como um conjunto de representações, valores, concepções e regras de comportamento que prescrevem aos indivíduos o que e como devem pensar, sentir e agir, seja para manter determinada situação, o que é mais comum, seja para mudá-la, o que é menos freqüente.” No entanto, apesar de todo o universo – cultural, simbólico e material – estar representado numa corrente ideológica, iria muito mais além, e buscaria o conflito entre Hegel e Marx, cuja questão primordial baseia-se na dicotomia infraestrutura e superestrutura. A primeira é representada pela força econômica e relações materiais de produção, ao passo que a segunda comporta instâncias jurídicas e ideológicas. Neste conflito, uma das estruturas deve dominar a outra, deve ser o alicerce de todas as outras relações existentes.
Não consigo, por motivos dialéticos, fazer uma dissociação entre ambas, mas não posso negar que estou num momento em que se faz necessário e prudente acreditar que são nossas condições materiais que determinam como vamos viver, o meio ao qual estamos inseridos condiciona nossas escolhas. Aí volto na questão inicial: se cada um realmente é livre para tudo e com muito esforço podemos ter aquilo que desejarmos, por que estou andando a pé e não de Ferrari? Por que minhas férias são em Poços de Caldas e não em São Petersburgo? Trata-se somente de escolhas minhas? Ou será que há algo muito maior e forte sobre nossas vontades?
Enfim, quis escrever isso (apenas isso) somente para dizer que, olhando alguns livros, achei uma frase escrita à caneta e achei absurda: Todo homem tem o direito de decidir sobre seu próprio destino e nesse juízo não há parcialidades.
Vamos esclarecer, Bob Marley: Não há imparcialidade em momento algum de nossa história. Não há neutralidade em nenhuma decisão, em nenhum conhecimento. Mas não podemos decidir realmente nosso próprio destino (a começar pelo fato de não acreditar que isso exista), uma vez que um homem pode escolher não trabalhar, mas consequentemente não poderá escolher entre a fome ou a fartura.
Você é muito técnica em seus pensamentos...
ResponderExcluirA explicação está mais ou menos dada para este pensamento "tecnicista".
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