segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Voltando ao projeto moderno

Se tem um período que eu adoro discutir é a Era moderna. Isso mesmo, aquela que todo mundo estuda um pouco na escola. Desde seus primórdios até os dias de hoje, estudar a modernidade e não discutir o processo de racionalização é missão impossível. Com isso, não estou dizendo que só existe uma vertente para realizar boas análises deste período, que seria pela racionalização, mas quero dizer que esta é um elemento de análise extremamente importante porque representa o espírito do contexto social, econômico, político e do próprio homem imerso nesse momento da história.
Se você procurar no dicionário o significado do verbo racionalizar, encontrará mais ou menos o seguinte significado, de forma concisa: tornar racional. E quando estudamos a modernidade, é possível perceber que ela necessariamente passou por um processo de racionalização; o projeto moderno elaborado (eu diria que até improvisado) pelo grupo que assumiu o poder nesse período - a burguesia - estava pautado na ordem, no desmanche de tudo que o homem já havia criado, inclusive as próprias instituições, para instaurar definitivamente uma nova ordem e uma nova sociedade. 
Weber pensou muito na questão da racionalidade instrumental como princípio operativo da civilização moderna, ou seja, no modo de realizar este processo de ordem. Dentro do conjunto de conceitos de ações da linha weberiana, este tipo de atitude ou ação da modernidade está classificada como uma ação racional com relação a um objetivo (em alemão Zweckrational), tendo em vista que os instrumentos utilizados para estabelecer tal ordem foram racionalizados, calculados e planejados.
Não creio que hoje seja possível afirmar que ainda vivemos na concretização deste projeto. Para os que já leram outras postagens, defendo a hipótese de que realmente muitas coisas fogem ao nosso controle. Isso, no entanto, não quer dizer que o objetivo nunca foi atingido. Muito ao contrário: quer um exemplo de ordem mais poderoso que o fordismo? Particularmente desconheço.
Justificando este post, quis escrever um pouco sobre a racionalização porque na última sexta-feira, ocorreu-me um fato insólito, que não pode ser considerado coincidência, haja vista o grau de seriedade que ele representa quando se fala em racionalização num mundo que se encontra em perfeito descontrole.
Numa cidade grande, com crescimento desordenado e trânsito caótico, como espécie de treinamento de paciência, parei no sinal vermelho. Ao meu lado direito, parou um ônibus, cujo motorista aparentemente muito tranquilo sacou um jornal, abriu-o e começou a ler. Após um intervalo de tempo, dobrou o pedaço de papel, guardou-o, engatou o veículo e o sinal se abriu. Tudo no tempo certo, num tempo também racionalizado. Não foi sorte, não foi acaso. Tudo estritamente calculado, talvez pelos anos de profissão. Este acontecimento me deixou muito excitada, considerando que eu moro numa cidade pequena e não se vê esse tipo de coisa em momento algum. Pode ser que alguém diga que isso é coisa de criança feliz: "é que você não está acostumada, porque isso acontece direto". Ok, mas o importante é que, acontecendo ou não com frequência, este fato me fez pensar que sempre estamos planejando tudo, calculando tudo o que pode ser feito num determinado tempo, para aproveitá-lo da melhor maneira possível, economizá-lo e fazer a vida render. A cena que presenciei pareceu uma viagem no tempo, uma volta à finalidade do projeto moderno.
E depois o homem diz que o que realmente vale a pena é andar para frente. Ah, o homem moderno é mesmo um ser fascinante e contraditório!

Um comentário:

  1. Fato insólito e deveras inacreditável. Para quem acha que ficção é mera ficção, acredito no verossímil. Cada caso, um caso. Cada cabeça, uma sentença, como já diziam os revolucionários franceses que viraram a mesa: o início da modernidade.
    Quanto ao homem qua guiava o coletivo? Ha, ele é ele e sua circunstância.
    O Homem é mesmo fantástico, fenomenal: é de uma paradoxal reviravolta de valores, ora acelerado, ora retrógrado.

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