Existe um vírus ao qual ninguém está plenamente imune. Este vírus é o do encontro quase cataclísmico entre o "eu" e sua respectiva vocação. Por tanto, nem preciso dizer que que esta espécie de vírus está em constante mutação, adaptando-se dentro de cada indivíduo que habita este solene planeta.
Certa vez, uma mulher, quando respondi que estava cursando Ciências Sociais, disse que eu iria morrer de fome se resolvesse investir nesta área. Ela era professora de Matemática e sua convicção era tanta que no fundo, mas bem no fundo, acho que ela queria mesmo era me intimidar. Sem ficar preocupada em dar a resposta certa, apenas afirmei que era apaixonada pelo curso, e que minha conscientização de tudo que envolve nossa contraditória sociedade só se concretizou de verdade após iniciar esta graduação, que na verdade é um ofício: o cientista social é, como diz Maria de Moraes, um artesão intelectual.
E é por isso - e somente por isso - que o curso de Ciências Sociais é a fusão entre vida pessoal e inteletual. Quando este salto de qualidade ocorre, o processo é irreversível. Pronto! Contraí o vírus, não estou imune a ele e ainda não inventaram sua cura. Ele me acompanhará pelo resto da vida, ainda que eu não trabalhe especificamente com o que ele pode me oferecer ou mesmo que eu morra de fome: ele já está hospedado em mim e em mim ficará para sempre, como o gosto pela leitura, a paixão pela música, o prazer em conversar.
Esta geração de estudantes é, sem dúvida, a mais pressionada de todos os tempos no que concerne à responsabilidade em fazer a escolha correta, precisa, no momento adequado de sua vida. Eu me considero uma mulher de sorte por ter acertado "de cara" na minha escolha. Mas todos deveriam saber que não somos obrigados a acertar de primeira, e somos muito menos obrigados a tomar qualquer decisão antes do momento que julgamos exato. Vírus é algo que se pega, que se contrai. Ele não surge em nós quando queremos. Este vírus é o resultado de todo um processo, de toda a conduta ideológica e ações particadas na vida, ainda que realizadas tardiamente.
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