segunda-feira, 5 de julho de 2010

Raquel Cristina Araras

Apesar de este ser meu nome e não estar em Barcelona, a paráfrase do filme Vicky Cristina Barcelona só aconteceu porque realmente pensei que o filme fosse uma espécie de biografia da minha pessoa através de duas personagens, não só por se tratar de conflitos existenciais e pessoais (ao contrário do que muitos imaginam, pensando em conflitos amorosos) mas justamente por apresentar questões reflexivas e que proporcionam insegurança às pessoas.
Com um cenário belíssimo e uma trilha sonora encantadora, os diálogos soam fundamentais para compreendermos aquilo que nos é estranho e desconhecido. A verdade é que tudo o que parece diferente acabamos recusando por medo, por receio das consequências. Afinal, a regra de nosso mundo líquido é que cada um se responsabilize por atos e escolhas, pensando ou não no que pode vir depois.
Justamente por isso, procuramos confiança e segurança, sobretudo nas pessoas. Traçamos planos e criamos metas o tempo todo porque pensamos que estando bem com um parceiro, o retorno é garantido, a satisfação é plena e nada deve dar errado. No entanto, a contradição é grande, porque também é ordem moderna a insatisfação crônica, e esta doença me acompanha incessantemente, sobretudo na vida pessoal.
Se prestarmos atenção em Vicky, veremos que ela se encontra o tempo todo fechada para negociações - principalmente amorosas - porque acredita ter construído e elaborado um cotidiano e futuro sem erros e imprevistos. Mas a partir do momento que outra pessoa minimamente estranha e com propostas incomuns surge em sua vida, Vicky parece estar num poço de dúvidas e transtornada com o véu não mais encoberto do desconhecido.
Cristina, porém, apresenta um quadro totalmente diferente. Livre, leve, solta e entregue a um mundo onde tudo pode fluir (inclusive as experiências de vida), é aquele pessoa que realmente só tem certeza do que não quer, porque não sabe o que realmente procura, agarrando, assim, todas as oportunidades que lhe surgem, mesmo que sua vida acabe mudando totalmente. Não digo que isso é mera ingenuidade ou mente de quem ainda não amadureceu partindo do pressuposto diante das escolhas - que parecem ilimitadas - que temos, o mundo nos apresenta muitas coisas, e na angústia de tentarmos nos encontrar, acabamos nos perdendo cada vez mais. Este é o caso de Cristina, que tenta viver intensamente. Como ela, já pensei diversas vezes que tenho muito a expressar e mostrar artística e culturalmente, mas talvez me falte talento ou até mesmo uma estrutura adequada para tanto.
Até o final do filme, muitas idéias passaram pela mente; algumas estão aqui expostas. Mas ficou claro que, dentre todos os pensamentos, quanto mais tememos o desconhecido por acreditar que temos tudo, mais ele se fortalece e nos surpreende. E quanto mais perdidos estivermos, menores serão as chances de nos encontrarmos.

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